127 ANOS DA ABOLIÇÃO

A abolição não foi um presente, os escravos e os trabalhadores negros e brancos lutaram por ela

A historiografia oficial lembra desta data como a data quando uma princesa supostamente benevolente fez uma grande caridade a uma massa indefesa. Seria uma ação humanitária em meio a uma grande maldade que ninguém teria lutado contra, nem os escravos, nem os negros assalariados livres, nem os trabalhadores brancos. Contar a verdadeira história é importante para recuperarmos nossa história e podermos erguer a luta contra o racismo e o que sobrevive da escravidão passados 127 anos.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 14 de maio de 2015| Edição do dia

(Foto: Sebastião Salgado)

13 de maio é um dia de no qual o Brasil teria “virado uma página de sua história”, assim reza a historiografia oficial. Uma ação, supostamente benevolente, de uma princesa teria acabado com esta praga histórica. Passados 127 anos podemos ver em cada questão social importante do país uma continuidade e transformação da escravidão. Não há “questão social” que também não seja “questão negra”.

Este não será o foco deste artigo. Nele queremos retomar uma história que é apagada. A abolição não veio de mãos benevolentes, foi produto de uma situação na luta de classes com o protagonismo da luta dos negros escravizados, e dos trabalhadores livres negros e brancos.

A burguesia e seu Estado negam esta história para contar seu conto da “democracia racial”, do país da “paz”, por isto não aprendemos na escola as histórias das revoltas dos escravos; dos grandes quilombos; não entra na história Zumbi como um grande estrategista militar que venceu diversas batalhas, soube mudar de táticas militares de guerrilha para confronto aberto, combinar diplomacia e guerra; não se conta das lutas de negros escravizados, negros livres e brancos, todos juntos pela abolição. Ao contrário, funcional a esta ideia onde os trabalhadores e os negros não podemos ser sujeitos da história, conta-se a abolição como um presente de uma suposta benevolência da latifundiária princesa Isabel, ou se tanto fruto dos discursos e artigos de parlamentares, de Joaquim Nabuco e outros, ou talvez conte-se da pressão do imperialismo inglês, mas nunca da ação dos oprimidos.

O papel dos trabalhadores negros e brancos para conquistar a abolição

O movimento negro tem cumprido um papel importantíssimo de resgatar as histórias dos quilombos, dos Malês, do medo que a burguesia e a corte tinham dos quilombos que haviam na região portuária da capital do império, do grande quilombo de Vassouras tão perto da capital e das cidades imperiais (Petrópolis, Teresópolis). Esta história é chave de ser resgatada pois mostra como ao contrário de ser um presente a abolição foi uma medida defensiva tomada para que não fossem os próprios negros, e os trabalhadores negros e brancos que arrancassem da burguesia a libertação como já estavam começando a fazer em vários centros urbanos e fazendas.

Esta é a história de associações e sindicatos de trabalhadores no Rio de Janeiro, como os gráficos, que, segundo jornal da época “reuniu-se e publicou um manifesto aderindo à Sociedade Cearense Libertadora, resolvendo negar absolutamente os seus serviços aos jornais que se declararam adversos ao movimento abolicionista da província e do país, fazendo publicações de qualquer gênero neste sentido”[1].

Esta mesma categoria que tentou organizar este controle operário da produção teve importante história e contribuição na luta pela abolição. Na segunda greve da história do país em 1858 – a primeira havia sido um ano antes por operários escravos do estaleiro Mauá – publicava artigos em seu jornal defendendo a abolição em meio a sua greve e em todo o período dos anos 1880 juntava dinheiro de seus associados para comprar alforrias, o mesmo que faziam os operários do Arsenal da Marinha[2].

Outras categorias, como os panificadores, com seu dirigente João de Mattos, organizavam fugas de escravos e forjavam alforrias para os negros libertos. Este grande dirigente operário abolicionista ajudou a montar este sindicato e esta tática pela libertação dos negros sob a proteção de um clube de dança (e assim subversivamente esconder-se dos escravocratas e do Império).

João de Mattos é um nome que precisa ser lembrado e tomarmos como exemplo para erguer uma nova história de luta contra as continuidades da escravidão no trabalho precário e violência policial. Este nome desconhecido de nossa história precisa ser recuperado, este dirigente havia organizado estas fugas em Santos, no estado São Paulo, montado um quilombo em Barra do Piraí (próximo a Volta Redonda) e depois no Rio de Janeiro onde organizou várias greves de trabalhadores brancos e negros panificadores bem como estas fugas e falsificações[3].

Os setores médios também aderiam à luta pela abolição e não só com discursos

Não só a classe trabalhadora e os negros tinham diversas táticas de luta pela abolição. Não esperavam passivamente que a monarquia e os escravocratas “concedessem” a abolição. Setores pequeno-burgueses organizados em torno da Escola Politécnica – atual prédio do IFCS/UFRJ – organizavam espécies de arrastões “persuadindo” os donos de escravos a libertarem todos os negros. E assim arrancar dos escravocratas “ruas livres” no Rio.

Estes arrastões reuniam-se periodicamente e iam livrando rua a rua do centro do Rio de Janeiro, começando pelo Largo São Francisco onde fica o atual IFCS, seguindo em outro dia em libertar todo Rua do Ouvidor, toda a Rua Uruguaiana...[4]

Recuperar a história para erguermos outro futuro

Com esta breve “recuperação” de lutas de setores pequeno-burgueses, da classe trabalhadora branca e negra e dos escravos negros pela abolição vemos todo o oposto de pensar que foi uma conquista passiva o fim da escravidão. Os trabalhadores, os negros, e outros setores buscaram arrancá-la.

O exemplo destas lutas faz mais do que nos fazer recuperar uma história não contada, marca também um exemplo para o presente. Hoje a classe trabalhadora está dividida em terceirizados e efetivos, temporários e permanentes, e nas piores posições, naquelas onde há mais risco de acidentes de trabalho, maior exploração, estão os negros em ampla maioria. O PL 4330 em tramitação no Senado, aprovado na Câmara de Deputados com a conivência do governo Dilma que só negociou termos fiscais do projeto, aumenta, e muito esta herança.

Apesar das “paralisações nacionais” de 15 de Abril e da anunciada para 29 de maio que a maioria dos sindicatos do país, no papel aderem, sua real mobilização para lutar contra a terceirização e o trabalho precário não acontece com a força que poderia, muito menos estes sindicatos atuam para unir os trabalhadores próprios e terceirizados. Indo na direção contrária deste “legado” esquecido dos sindicatos cariocas no final do século XIX. Ali, trabalhadores livres, inclusive brancos, como os que predominavam no sindicato de gráficos que mencionamos, mobilizavam-se pela abolição. Este legado, não só no que tange à terceirização, segue vivo.

No país de milhares de negros mortos pela polícia, dos Amarildos, DGs, Claudias, e os milhões esculachados, humilhados diariamente, nas UPP e outras polícias. No país que governos, ditos progressistas, como o de Dilma e Lula mantém tropas no Haiti, primeiro país negro a se libertar tanto da escravidão como de sua “metrópole”, recuperar este protagonismo, esta luta, este exemplo dos gráficos, panificadores, dos trabalhadores do arsenal da marinha, nos mostram outro caminho: um caminho da classe trabalhadora branca e negra junta lutando contra a opressão e exploração não só de sua própria categoria, ou somente de parcela da categoria como fazem a maioria dos sindicatos no país, mas do conjunto da população, sobretudo aqueles mais explorados e oprimidos, os negros.

Esta é uma parte da história esquecida que precisamos recuperar, reescrever, para vencermos, não só o PL 4330, não só a violência e assassinatos policiais, mas para dar passos sérios na luta contra o que sobrevive, transformado, da escravidão mesmo passados 127 anos.

NOTAS

[1] Citado em Escravizados e Livres: experiências comuns na formação da classe trabalhadora carioca, de Marcelo Badaró Mattos, Rio de Janeiro, Bom Texto, 2006. pg 155

[2] idem

[3] ver diversas referências no livro supracitado de Marcelo Badaró Mattos.

[4] idem




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