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SEMANÁRIO

A farda versus a toga e a ação das patronais industriais em meio à crise brasileira

Leandro Lanfredi

A farda versus a toga e a ação das patronais industriais em meio à crise brasileira

Leandro Lanfredi

Arte: Juan Chirioca

Recorrentes crises atravessam o país que ruma a recorde atrás de recorde em mortes, muitas delas evitáveis pela pandemia de Covid. A saída de Moro marcou uma inflexão do que é o governo Bolsonaro, seus aliados, seus pontos de apoio nas classes sociais e nas instituições, seu discurso. Esta inflexão tensiona não somente o que é o governo, as eventuais bases de sustentação contra um impeachment mas coloca em rota de colisão dois pilares do Estado brasileiro e toda sua confluência desde o golpe de 2016: o judiciário e as Forças Armadas.

Por sua vez, em um plano ora paralelo, ora perpendicular a essa crise, cruza-se uma outra crise: o que fazer frente a pandemia e à economia. E esta segunda fonte de tensões ajuda a explicar a saída de Mandetta e de Teich, e também não deixa descansar quem serve cafezinho aos mimados ocupantes do Palácio do Planalto, dos estúdios da Globo no Jardim Botânico, da FIESP na Paulista ou da nata de um agressivo capital bolsonarista esteja ele na Faria Lima ou no sul e interior do país.

A reorganização do governo como parte de uma viva tensão no regime político

A saída de Moro abriu espaço para visualizar dois processos que já estavam em curso e se aceleraram com sua saída. A negociação de Bolsonaro com líderes do centrão, oferecendo cargos e recursos em troca de apoio ganhou renovada força sem Moro e a Lava Jato, e o destacado protagonismo militar no governo também não para de vir à tona, acelerando o que já víamos na mediação-tutela de Braga Netto sobre Mandetta, Bolsonaro e governadores semanas atrás.

As negociações para manter Moro, além da Bolsonarista Carla Zambelli, envolveram 3 generais, que vão sentando praça no Planalto e espraiando-se em cada ministério, em cada iniciativa governamental e por sobre órgãos civis, seja no Ministério da Saúde, seja no anúncio do plano Pró-Brasil colocando esferas econômicas sob sua alçada, ou agora com uma operação de Garantia da Lei e da Ordem em todos estados amazônicos. Por outro lado essa movimentação de Moro foi acompanhada de marcado passo ao campo opositor da grande mídia e tensiona vários políticos e partidos com mais base de apoio no sudeste, notadamente o PSDB de Doria e FHC. Movimento esse que é concomitante a pesquisas de opinião marcarem que o sudeste passou a ser o local onde Bolsonaro é pior avaliado (49% de ruim e péssimo versus 25% de ótimo e Bom no último data-poder, o avesso do sul onde o péssimo marca 14% e o ótimo 52% segundo a DataPoder).

Para uma análise mais aprofundada do realinhamento no governo sugerimos a leitura de “Os novos realinhamentos no regime político brasileiro de Thiago Flamé, publicado no semanário Ideias de Esquerda de semana passada

Mas o realinhamento em curso vai muito além de um realinhamento de governo, atinge o regime político, transtorna e coloca em colisão pilares de sustentação dele. Se o golpe de 2016 envolveu um alinhamento “perfeito” de forças do Centrão, da grande mídia, a Lava Jato, o STF e a cúpula militar, cada um desses atores agora ou está rachado internamente (como mais explicitamente nota-se no Congresso) ou estão em polos opostos do que fazer da continuidade do regime político emergente nos últimos anos.

O STF e a mídia, a Lava Jato e parte do Congresso atuam neste momento como defensores da continuidade de um regime degradado. São defensores do status quo de 2016 em diante. Detrás dessas forças atuam partidos opositores como o PT, PCdoB que volta e meia clamam ou aos militares para romperem com Bolsonaro e assumirem o protagonismo ou colocam nas mãos do STF, de Maia esse protagonismo. Com um Maia enfraquecido, ou mesmo negociando seu preço para apoiar Bolsonaro como o restante do centrão. Buscam enfraquecer o Executivo federal em prol do judiciário e do legislativo, e dos executivos locais, especialmente dos agora opositores Doria e Witzel.

De outro lado perfilam-se militares, a extrema direita bolsonarista e alas do centrão, que no caso de Roberto Jefferson assumem até a estética armamentista e o discurso anti-comunista. Diuturnamente atuam para enfraquecer outros poderes e fortalecer o Executivo federal, e seus cargos e poderes. Nesse plano assumem protagonismo cada vez maior os militares, e buscam se colocar eles como árbitros da situação nacional, deslocando o STF desse papel.

Em cada um dos lados esses alinhamentos não significam adesões programáticas. Dentro do STF há alas, mas frente a investidas de Bolsonaro e dos militares surgem um espírito de corpo, como se viu em defesa de Alexandre de Moraes. De outro lado, frente a ameaça de Celso de Mello de que poderia conduzir coercitivamente os generais-ministros a depor houve estridente e contundente declarações militares.

No timão das naus autoritárias podemos destacar dois pilares do Estado burguês: a toga e a farda. Forças sem voto e que movem a política com seu notório autoritarismo não só nos fins mas também nos meios.

Se de um lado há tentativa de usar a Polícia Federal e o que resta de prestígio e força da Lava Jato, de outro lado há o uso da ABIN inclusive no movimento de derrubada de Moro e o STF com poderes de investigação próprios, em inquérito a cargo do ministro Alexandre de Moraes sem objeto e sem qualquer controle externo. A espionagem e a contra-espionagem viraram moeda política não somente corrente mas em algum sentido cada vez mais importantes. Esses desdobramentos da crise política retratam como a tensão de STF e militares e toda a tensão das forças políticas, com voto e sem voto, já se dá num âmbito que não é o da Constituição de 88 e mais, se estamos rumando a manutenção de um regime degradado tipo o de um governo golpista como o de Temer ou a um “algo mais” na degradação bonapartista, inscrita nas possibilidades da longa crise orgânica brasileira agora desafiada pela maior recessão da história brasileira e uma pandemia.

A crise da pandemia, da economia e seus atores

Em um outro plano, mas que se cruza a toda a crise do regime político temos a imensa crise posta pela situação da pandemia e da economia. Se até determinado momento os militares atuaram para sustentar politicamente Bolsonaro mas ao mesmo tempo dar aval a política sanitária de Mandetta, essa situação mudou nas últimas semanas.

Frequentemente encontramos algum pronunciamento de algum militar, seja Braga Netto ou Mourão, aludindo à necessidade de maior abertura da economia. Não chegam aos extremos de Bolsonaro mas tensionam num caminho de maior abertura, ao mesmo tempo que olhando as redes sociais do Exército, comandadas pelo general Pujol, desafeto de Bolsonaro mostram a cúpula militar da ativa dando maior preocupação à resposta da pandemia. Pode se tratar de divisão de tarefas, ou mesmo uma preocupação geográfica e com o medo de explosões sociais, preocupados com a pandemia em determinadas regiões e visando maior abertura em outras.

Essa mudança de posição dos militares pode ser entendida não somente como parte da aliança política com o Bolsonarismo mas como motivada por movimentações de classe, burguesas, de fundo.

Em meio às crises da saída de Moro e de Teich dois movimentos importantes e chamativos aconteceram. Na quinta-feira 7/5 Bolsonaro, Braga Netto, Guedes e 15 presidentes de sindicatos patronais marcharam ao Supremo tentando constranger o presidente Dias Toffoli pela abertura das quarentenas, esse esquivou do assunto. No mesmo dia, enquanto alguns empresários tomavam a palavra para exigir abertura com o argumento de que perderiam mercado para concorrentes estrangeiros que estavam abrindo suas economias, outros, fora da reunião, tentavam se distanciar dizendo que não estava nos planos pressionar o STF e estavam preocupados meramente em garantir que seu ramo não seja afetado por eventuais lockdowns. Naquela reunião estavam presentes representações de ramos industriais que são monopólios mas não havia nenhuma forte representação de “global players” brasileiras ou de multinacionais.

Nesta última quinta-feira, 14/05, nova reunião de Bolsonaro, Braga Netto, Guedes e empresários, virtual, com Skaf da Fiesp, e a nata das global players brasileiras (JBS, Votorantim, Bradesco, entre outras) e importantes multinacionais ianques, como a GM e a Ford se fizeram presentes. Nesta reunião Bolsonaro advogou pelo fim de todas quarentenas e por adotar seu modelo de “isolamento vertical” somente de grupos de risco, desconsiderando tudo e qualquer coisa que não seja o lucro. Skaf, saiu desta reunião e foi a CNN dar longa entrevista onde atacou fortemente Doria, um dos principais adversários atuais de Bolsonaro, e advogou pelo fim do isolamento em algumas cidades de São Paulo, especialmente na região industrial do Vale do Paraíba, onde há movimentação de prefeitos, inclusive tucanos, contra Doria, para satisfazer GM e demais monopólios instalados na região.

No dia seguinte, com a renúncia de Teich, o vice-presidente da FIESP (presente na marcha ao Supremo no dia 07) e outros empresário fizeram pronunciamentos críticos a Bolsonaro. O vice-presidente chegou a afirmar que Bolsonaro estava atrapalhando as aberturas: “O que ele está fazendo é exatamente o contrário. Com essa instabilidade no Ministério da Saúde, como você vai fazer uma abertura, se existe uma insegurança geral com relação ao que está acontecendo aqui no Brasil? Você tem o presidente em uma direção, os governadores na outra. Não tem um alinhamento do presidente com o Congresso”. Bom frisar que todos governadores garantiram as indústrias com ou sem lockdown, sejam eles Doria, Witzel, Barbalho ou Dino. A política relativa ao comércio pode diferir, mas a garantia dos lucros dos pesos pesados, a despeito de considerações sanitárias unem os diferentes espectros da política patronal.

A política dos empresários parece ser multifacetada. Se por um lado oferecem sustentação política a Bolsonaro e servem para ele pressionar outros poderes, isso não significa embarcarem em sua linha de fim de todas quarentenas e medidas de isolamento, defendem objetivos mais “mínimos”, como garantir que sua indústria seja considerada essencial e continue produzindo ou advogam por uma abertura gradual. Essa movimentação também parece ecoar uma mudança de política por parte de diversas patronais no mundo. Se até poucas semanas atrás os democratas nos EUA polarizavam com Trump contra as aberturas, agora o fazem menos e já estão relaxando medidas até mesmo em áreas de Nova Iorque e da California onde governam, e em um think tank afim aos democratas ou ao menos ao deep state não trumpista, a revista Foreign Affairs publicou com destaque artigo de opinião defendendo a não imposição de medidas restritivas, que o modelo sueco será o modelo no mundo.

Observando essas aberturas alhures, temerosos por seus lucros apressam-se os empresários aqui. Pouco importa estarmos no pico da pandemia aqui. Importam seus lucros. E os militares, por considerações nacionais ou internacionais apontam no mesmo caminho, um que não é exatamente o de Bolsonaro mas tem “unidade de ação” nos primeiros passos. Essa unidade por algum nível de flexibilização encoroja Bolsonaro a ir por mais, e coloca essas considerações políticas e econômicas em choque com outros atores políticos e mais, com os trabalhadores, que estarão mais expostos e em meio ao aumento das infecções, internações e mortes.

Os empresários podem ser um fator temporário para estabilidade do governo mas passam a ser um fator para instabilidade no regime e na luta de classes ao promoverem uma combinação de pressão por aberturas, violentos ataques com demissões e cortes de salários e direitos, em meio a escalada da pandemia.
Essas apostas burguesas de se permitir tamanho descalabro sanitário e político em prol de sua fração nas disputas do regime e em prol de seus lucros é também uma aposta em aproveitar para tirar o máximo da classe trabalhadora, em lucros e vidas, enquanto não acontecem revoltas e explosões sociais como todos analistas políticos preveem.

Há um forte falta de sincronia no nível de crise objetiva do país e a resposta subjetiva. Mas há sinais iniciais de descontentamento que se nota nos locais de trabalho, em mobilizações mesmo que iniciais em alguns hospitais, em algumas indústrias. E se a burguesia acelera seus ritmos vendo o que ela está impondo na Itália, na Alemanha, Na China, nos EUA, o mesmo pode acontecer com a classe trabalhadora brasileira, que tanto comentava poucos meses atrás as lutas na França, no Chile. Uma retomada do protagonismo da classe trabalhadora na luta de classes em outros países acenderá pavios que estão sendo sistematicamente molhados no combustível do ódio que patrões, governantes e militares nos oferecem dia a dia. Se Mourão, a Globo, Doria, a FIESP, Bolsonaro estão todos falando das revoltas, da anarquia de amanhã nada menos que isso deve perpassar a consideração dos comunistas. Preparar sistemática e cotidianamente uma força política nos locais de trabalho que dê resposta aos desafios de hoje, guardando independência das variadas porém igualmente criminosas opções que o regime político burguês tem a nos oferecer, e tendo em vista a preparação do amanhã. Pode ser que estejamos entrando nas horas mais sombrias da pandemia, mas tal como acontece em toda madrugada, esse horário que é o mais frio e o mais escuro é justamente o que antecede o amanhecer do dia, estejamos preparados e mais fortes para ele.

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Leandro Lanfredi

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