Política

ANÁLISE

As fraquezas de Bolsonaro diante das crises do Coronavírus e da economia

O Coronavírus está impactando fortemente as vidas dos brasileiros. Não há trabalhador, e até mesmo capitalistas e governantes que não tiveram que mudar seus planos. Bolsonaro passou do negacionismo é “tudo fantasia” para atabalhoadamente, anunciar medidas frente ao vírus e seu impacto econômico e humano. Barulhentos e forte panelaços contra seu governo foram ouvidos em todas as maiores cidades do país.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 19 de março| Edição do dia

A crise do Coronavírus atua como um acelerador de contradições, econômicas, sociais, políticas já preexistentes e as coloca em novas temperaturas. Isso nota-se também na relativa falta de “unidade nacional” mesmo diante do vírus. Nessa noite ouviram-se fortes panelaços contra Bolsonaro em todas as maiores cidades do país, ilustrando um importante debilitamento do reacionário presidente nas classes médias. As manifestações em seu apoio, ocorreram mas foram bem menos expressivas.

A crise com o COVID-19 acontece e alimenta um terreno de crise social e polarizações. Sua evolução ainda é incerta, mas não promete nenhuma facilidade para Bolsonaro visto que seu negacionismo de até ontem se chocará com uma curva de hospitalizados e fatalidades crescente. Fatalidades completamente evitáveis em sua maioria, não fosse o descaso, não fosse a precarização e corte de recursos da saúde pública, não fossem as desumanas condições de vida, moradia, jornadas de trabalho a que padecem os trabalhadores.

Aqui oferecemos um primeiro e rápido diagnóstico de algumas das contradições subjacentes as crises conjuntas da economia, da política e do Coronavírus atravessando o país.

Uma coletiva de imprensa que escancara um Bolsonaro em apuros

Imagem da coletiva de imprensa, 7 ministros, Bolsonaro e um funcionário de segundo escalão erguido ao primeiro ranking por Bolsonaro, o coordenador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Esse último é um militar da Marinha, mais precisamente um contra-almirante que ninguém conhecia, e que desrespeitou os protocolos de sua própria agência, indo junto de Bolsonaro cumprimentar colegas de reacionarismo na manifestação do dia 15.

Na foto da coletiva de imprensa vemos 4 civis, 4 militares e Bolsonaro. Nada da trupe evangélica e olavista de Weintraub, Araujo e Damares. Também não estiveram presentes o trio de pesos pesados de ligação com o “centrão”: Onyx, Osmar Terra, Tereza Cristina. E a própria ocorrência da coletiva nessa tarde foi uma crise, Bolsonaro falou ontem às TVs que queria realizar uma coletiva junto de Maia, Alcolumbre e Toffoli para mostrar a “unidade do país diante da crise do Coronavírus”.

A conferência ocorrida depois foi bastante protocolar mostrando a assinatura do decreto de "calamidade pública" e sem a presença de Maia, devido a votação dessa matéria no Congresso e nem de Alcolumbre que contraiu o Coronavírus.

Sinais de que a crise está longe de uma pacificação de “unidade nacional”, ouve-se nos panelaços mas também se vê, não somente nessa ausência de Maia, que seguramente poderia estar, mas também no ataque dos filhos presidenciais a Maia:

E para agravar, o próprio Bolsonaro agradeceu nominalmente em sua coletiva de imprensa a um personagem secundário do judiciário pela “união nacional”, cumprimentando o ministro Napoleão do STJ e não nenhuma iminência de algum poder real.

A imagem com tantos militares ilustra uma tendência que já se via semanas atrás, a imensa presença militar no governo, colocando generais e almirantes como uma espécie de poder moderador, de intermediário e árbitro autoritário entre forças díspares e conflitivas. Assim vimos as Forças Armadas atuar entre governadores e tropas policiais com métodos milicianos alentadas pelo Bolsonarismo, e vemos agora o general Braga Neto como coordenador da equipe de combate ao COVID ou o contra-almirante da ANVISA de sombra do ministro Mandetta, tão elogiado pela mídia, tão presente ao lado de adversários como Doria e Witzel.

Com Bolsonaro enfraquecido nas classes médias, como ficou evidente nos panelaços, contando com uma oposição social com força entre as mulheres, a juventude e os negros, sua dependência do apoio político que a cúpula militar lhe dá passa a ser cada dia mais relevante.

Esse é um pano de fundo da cena com muitos militares, com menos olavistas, menos golpistas com cara institucional (como Maia, Toffoli, etc.) e com um governo anunciando coisas completamente contrárias ao que falava até dias atrás ilustra o apuro em que está o governo. Um debilitamento que temos que ver quanto se desenvolve vendo a politização nas massas, a ação de outros atores políticos, vendo quanto a oposição exposta nas maiores cidades do país chega às periferias das regiões metropolitanas e ao interior do país.

Nada ilustra mais esse debilitamento do que a impressionante insistência de Bolsonaro a que as mídias divulgassem o contra-panelaço das 21hs em seu apoio (e o relativo fracasso diante do panelaço em oposição) ilustra um governo em apuros e que até mesmo para mostrar serviço nas redes sociais precisa convocar anticorpos mesmo que eles sejam terraplanistas, negacionistas do COVID e especialmente defensores do AI-5. Bolsonaro anseia para que algumas medidas anunciadas, particularmente algumas medidas relativas ao FGTS e liberação de um “voucher” de R$ 200 para os trabalhadores informais, aliviem a crescente pressão que ele sofre.

Um governo começando a fazer todo o oposto do que dizia

Guedes que tinha passado dias e mais dias dizendo que a resposta ao impacto na economia da crise econômica internacional e seu agravamento com o COVID eram mais reformas ultraliberais atacando os gastos públicos, atacando os servidores públicos, realizando privatizações teve que oferecer medidas para empresários e trabalhadores e ainda um “voucher” de R$200 aos trabalhadores informais. Com essas medidas e o plano do Congresso aprovar o decreto de “Estado de calamidade pública” pretendem descumprir parte da Lei de Responsabilidade Fiscal para tomar algumas medidas emergenciais na saúde, salvar empresários mas ainda manter seu cerne que é garantir, sempre, custe o que custar o pagamento dos trilionários juros dos capitalistas donos da dívida pública.

Bolsonaro que veio falando tantas vezes que a crise do COVID-19 era histeria teve que admitir sua gravidade e ver que ao seu lado um general de 4 estrelas, Azevedo, ministro da defesa, usasse as mesmas palavras de Macron para se referir a crise sanitária da COVID: uma guerra.

O tom do governo Bolsonaro, e especialmente do presidente da República, ainda está muitos decibéis abaixo de praticamente todos governos do mundo, até mesmo daqueles que ele admira como os governos dos EUA e Israel.

Diante desse cenário febril o isolamento do governo só aumentava, as críticas a sua atuação apareciam não só na grande mídia, não só de governadores de direita mais desalinhados ao governo como Witzel e Doria, como também via OMS, via mídia internacional, via desalinhamento da CNN que o bolsonarismo tanto apostou que fosse “uma mídia para chamar de sua”, ou até mesmo de Datena o criticando em entrevista ao vivo. O governo de fato do Brasil da semana passada parecia ocupar alguma ponte área entre o Ministério da Saúde, o Palácio dos Bandeirantes e o das Laranjeiras. O problema da integração nacional, posto na crise de segurança com foco no nordeste se recolocou e parece ter voltado a virar um ponto importante de toda análise nacional.

Nesse cenário de enfraquecimento do poder presidencial chama atenção que seja novamente um militar a ser colocado na coordenação de um programa central, o combate ao COVID, e que Bolsonaro tenha dito que “foi convencido” a fazer o pronunciamento de quinta-feira passada desconvocando os atos que ele acabou participando no domingo. Estariam os militares aumentando sua localização como árbitros entre o bolsonarismo e “fatores de poder” como Maia, Doria, a Globo, etc?

Quando o terraplanismo bolsonarista arrisca vidas e talvez também seu apoio

Ainda é muito cedo para quantificar a evolução “total” do fenômeno de crescente apuro, ou mesmo crise da presidência. A evolução do emprego, da renda, dos internados e mortos pelo descaso atual e passado com a saúde dos brasileiros seguirá influindo, mas ainda é cedo para dizer definitivamente seus sinais. De todo modo o governo, mesmo com sua mudança de tom ainda está muito atrás de outros governos burgueses que tem tentando adotar medidas de "capitalismo de estado" diante da catástrofe social que seus cortes neoliberais produzem.

Mas o problema vai muito além, há o problema de emprego, de como as pessoas vão se sustentar com tantos fechamentos compulsórios, com empresas autorizadas a suspenderem salários? Ou por outro lado como aqueles que não podem parar não podem começar a questionar que a burguesia e governos impõe sua "essencialidade" por fora de que as capacidades de produção realmente sirvam à saúde da população.

Podem as medidas de liberar FGTS aliviar um pouco a pressão sob Bolsonaro? Vejamos mas não é o que os panelaços de ontem e de hoje apontam. Pode o governo, com os militares assumindo maior centralidade, parecer menos alheio e contrário a tomar medidas para salvar vidas? Medidas novas ainda não há, há anuncio futuro de “se necessário” hospitais de campanha do Exército e talvez alguma maior disponibilidade de testes de COVID, mas por enquanto nada. E o número de doentes vai aumentando, os riscos a emprego e renda idem, uma economia já debilitada entra numa espiral de forte queda.

A economia está em imensa queda. Impactada primeiro pela queda nas compras chinesas, pela queda no preço das commodities agora a economia se baqueia também pela restrição de circulação oriunda das medidas de combate a evolução da curva epidemiológica do COVID-19. Nos EUA, que estão 1 ou 2 semanas a frente do Brasil no impacto econômico e na difusão do vírus, pesquisa recente indica que 18% dos lares sofreram demissões ou perda de horas trabalhadas e de receita somente nos últimos dias. O próprio Trump fala que num dos cenários oficiais de seu governo (o pior segundo ele) os EUA preveem desemprego de 20% por lá.

O Brasil parte de 11% desemprego, mais de 25% subutilizados, mais de 40% de trabalhadores informais e com um governo que fazia pouco caso da crise, tanto no aspectos das vidas humanas em risco ou mesmo do impacto na economia com Paulo Guedes dizendo que os fundamentos da economia brasileira eram diferentes do impacto no mundo, sendo que mesmo que isso fosse verdadeiro sabe-se lá como ele resolveria a crise com o volume e preço das exportações de carne, soja, ferro, petróleo, mercadorias que despencam tanto quanto o real ou a Bovespa.

Em resumo, temos um país que parece contaminado, na economia, com uma população imensamente em risco de falta de atendimento médico e sob condições subjacentes de debilidades metabólicas de um capitalismo que precariza fortemente suas condições de vida, uma crise política que persiste mesmo com Coronavírus, e com crescentes tensões entre os poderes e atores políticos.

Poderão Maia e Bolsonaro, Globo e Record, progressismo burguês e cúpulas das igrejas evangélicas confluírem em uma “unidade nacional”? E sob mando de quem? Nessa noite do dia 18 a resposta mais fácil parece ser não, só olhar o twitter de Malafaia para ver a briga entre os evangélicos sobre seguir ou não as determinações de diminuir as concentrações de pessoas, ou mesmo notar a virulência de suas palavras contra um governador bolsonarista, como o governador de Santa Catarina.

Com tanta divisão entre os de cima e tantas palavras agressivas voando de lá e para cá, com tantas vidas em risco, podem os trabalhadores começar a responder às múltiplas crises entrelaçadas que estamos vivendo? A crise para garantir saúde a todos, para garantir empregos e renda, e para garantir nenhum aprofundamento de autoritarismo podem cada uma delas mover resposta em um cenário cada vez mais difícil para a gestão calma e pacífica de um capitalismo podre, que não oferece sequer leitos para os doentes.




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