Política

EDITORIAL DE EDITORIAIS

Derrotar os professores em greve, os direitos dos trabalhadores, mas ainda à caça de uma agenda “positiva”

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

domingo 10 de maio de 2015| Edição do dia

Em meio às lutas da educação distintos jornais têm se dedicado a criticar as greves e a trabalhar ativamente por esta perspectiva de classe. Neste domingo o Gazeta do Povo, jornal com maior tiragem do Paraná, somou-se ao que a Folha e Estado de São Paulo tem feito. Este portal Esquerda Diário já escreveu artigo em resposta à Folha que atacava os professores em editorial intitulado “mestres indisciplinados”, respondemos também às distorções e até mesmo a falta de cobertura da greve dos dois grandes jornais paulistas. Neste artigo além de uma primeira resposta ao jornal de Curitiba procuramos relacionar uma visão de qual “linha política” lemos nos grandes meios brasileiros, este partido político oculto da elite brasileira.

Semanas de críticas a Richa para depois voltar-se contra os professores

Apesar de imprimir frequentemente artigos de proeminentes tucanos como Álvaro Dias o jornal daquela capital sulista vinha desde a repressão aos professores adotando uma linha bastante crítica ao governo Richa. Esta linha vinha se desenhando como uma tentativa de uma “teoria dos dois demônios”. Teriam havido abusos dos dois lados, argumentavam igualando as ações daqueles que para se defender, defender seus direitos e aposentadorias bloquearam uma votação, e a violência daqueles de posse de gases, cachorros, balas de borracha buscaram espantar os críticos do centro cívico. Sem conseguir criar uma forte corrente de opinião “nem, nem”, este jornal passou para uma linha mais clara: anti-greve neste domingo.

O editorial de hoje traz um título aparentemente neutro “a greve dos professores”, porém o subtítulo já explicita a linha defendida “ao ter cruzado os braços sem pauta definida, sindicato desafia a justiça e coloca ambições políticas à frente do bom senso e do direito dos alunos”.

O artigo busca deslegitimar o conjunto da greve, chega a argumentar inclusive que houve negociações e que o plano de aposentadorias teria sido algo mais negociado do que alegam os professores (não o sindicato como diz o artigo, salvo se pensarmos que os milhares de grevistas aderem por ordem de alguém e não por vontade própria). O editorial chega a falar que a greve seria de “má fé”. Não o plano de Richa, não a situação da educação no país, não a repressão, nada disso, mas sim a greve!

No final das contas o artigo busca mostrar que a greve é meramente política e que a justiça precisa ser cumprida e que se espera que muitos professores comecem a furar a greve amanhã. Como política a greve seria ilegal e indefensável. Uma posição antiga nos grandes meios brasileiros. Toda uma discussão ideológica anti-política - como se os trabalhadores não pudessem fazer greve que não fosse por salário - contra a pauta da greve, e encobertando sua posição anti-professores através de dirigir sua crítica não aos trabalhadores como um todo, mas ao sindicato e sua direção.

Não nos cabe aqui defender a direção da APP-Sindicato que apesar de dirigir um dos maiores sindicatos da CUT no país não chama nenhuma ação em solidariedade a sua greve, ou seja, de fato conduz esta luta acompanhada no país todo a um beco sem saída, que pode debilitar Richa e erguer parlamentares petistas no Paraná. Ou seja, essa direção não auxilia a termos uma paralisação nacional em apoio a todas greves da educação, a organizar e coordenar as várias greves e a politização no Paraná. Tal como outros sindicatos da CUT em meio aos ajustes de Dilma faz oposição aos tucanos (Paraná, São Paulo), mas age somente até um ponto que mantenha o controle das forças em movimento.

Consenso editorial: manter-se no ataque na economia e nos locais de trabalho

Há mais ou menos um mês quando ainda era “quente” o debate sobre impeachemnt escrevemos um artigo de análise que buscava mostrar que a linha editorial dos grandes jornais burgueses não era impeachment, mas sim uma “agenda positiva neoliberal”. Houve quem nos criticou por isto, que estaríamos “não enxergando o óbvio”. A realidade mostrou que esta foi a linha mestra que a grande burguesia seguiu, aos trancos e barrancos, alinharam-se detrás de FHC e dos grandes jornais de organizadores de opinião com este intuito. Desde então o debate se deslocou do que fazer na política nacional imediatamente a como, em meio a crise do governo e do petismo ir assentando golpes ao PT mas, muito mais importante, aos direitos dos trabalhadores.

A linha política tem sido “mais PL 4330, mais MP 664 e 665 e menos impeachment”. Ou se preferirmos, mais Levy menos Revoltados Online. É neste contexto que devemos entender o editorial parananse de hoje, abertamente crítico à greve, buscando armar condições para derrota-la, e os mil e um editoriais que toda a grande mídia faz diariamente, em defesa de “modernização das relações de trabalho”, “arrumar a casa”, ou outros eufemismos que criam em defesa da agenda de ataques em negociação entre o Planalto e Congresso.

Este domingo não trás nenhuma novidade expressiva, pois a linha editorial geral vai no mesmo sentido, com a Folha de São Paulo, pela segunda semana seguida destoando, ensaiando um discurso mais “positivo”, enquanto todos os outros focam-se só no negativo, “contra a corrupção”, “contra os direitos arcaicos”, “contra o PT e o bolivarianismo”, etc.

O Estado de São Paulo trás editorial sobre a inflação e outro, bem crítico a Lula e o PT, com eixo em criticar sua crítica ao PL 4330. O Globo trás editorial contra a expansão das favelas (uma agenda local permanente) e seus dois principais colunistas trazem críticas indiretas ao PT. Merval Pereira continua sua série de artigos de porque Fachin não deveria ser nomeado ao STF, e Miriam Leitão consegue através de critica a repressão de Richa aos professores elogiar Montoro e nisto criticar o PT e PCdoB.

Trata-se de pequena guerra de desgaste. Estamos, no retrato do dia de hoje, longe dos assaltos de “impeachment” que se desenhava, de acordo o petismo e aqueles que se impressionam com sua retórica, o jogo de hoje é do desgaste político diário do PT, e fundamentalmente enfrentando uma batalha onde o que está mais em jogo são os ajustes, a vitória ou derrota das greves e não, ainda, “projetos de país”.

A Folha de São Paulo e as empreiteiras estão ensaiando discussões de projeto

O grande jornal burguês tido como o mais progressista do país, apesar de defender que a ditadura tenha sido uma “ditabranda”, tem ensaiado um novo discurso. Desde semana passada tem publicado artigos que falam sobre problemas de infraestrutura e sobre a necessidade de planos investimento. Isto se refletiu no editorial do domingo passado, que “curiosamente”, veio acompanhado de artigo de Norberto Odebrecht criticando o governo Dilma justamente por falta de plano de longo prazo. Este gigante das obras, privatizações e sócio da Petrobrás na gigante petroquímica Braskem nunca foi de escrever muitos artigos. Ter saído do silêncio é indicativo de possíveis mudanças no bloco dominante. O alinhamento das finanças e “gigantes nacionais” detrás do PT pode estar se esgotando. Pelo menos este gigante já se posicionou criticamente.

Nesta semana esta mesma folha trás um editorial que aparentemente seria centrado no reajuste do FGTS de acordo com a inflação para argumentar a favor dos investimentos em infraestrutura que são feitos com este fundo e que eles tenham maior controle. Estaria a Folha, junto a Odebrecht e outros setores ensaiando discursos e novo bloco dominante?

Ainda é muito cedo para ver se estas movimentações que começam a aparecer publicamente ganharão vida mais profundamente e significarão rupturas e fracionamentos nas classes dominantes. Porém, com novos discursos ou não, dividindo-se sobre “a agenda do futuro” ou não, estas diferentes parcelas da mesma elite têm uma agenda comum: derrotar os professores grevistas no Paraná, em São Paulo, implementar o PL 4330, os ajustes.

Os trabalhadores precisam avançar na coordenação de suas lutas, passando por cima de direções que não estão dispostas a fazer isto como é o caso da APP-Sindicato e APEOESP; só assim poderemos começar a colocar “nossa agenda” no debate político nacional. E assim deixarmos de debater o que estas elites querem para o país, mas o que nós precisamos e queremos. Da educação, saúde, transporte, às condições de trabalho dos milhões de terceirizados no comércio, nas fábricas e nos campos.




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