Política

ENTRE A CORRUPÇÃO E A RETÓRICA NACIONALISTA

Dilma diz que Petrobras “já limpou o que tinha que limpar” e “dará orgulho ao país”

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 10 de abril de 2015| Edição do dia

Em cerimônia do programa Minha Casa Minha Vida, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, a presidente Dilma Rousseff comentou sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, afirmando que "A Petrobras está de pé. Já limpou o que tinha de limpar. Tirou aqueles que tinha de tirar de lá de dentro e que se aproveitaram de suas posições para enriquecer os próprios bolsos".

No entanto, nada foi dito sobre como se deu essa limpeza. Quem foi afastado? O que foi apurado? O dinheiro foi devolvido? Os empregados terceirizados demitidos nos estaleiros, no COMPERJ, recuperaram seus empregos, seus salários não pagos?

Até o momento somente um punhado de altos funcionários saíram da empresa e pouquíssimas demissões ocorreram, mas não é possível que diretores e gerentes gerais operassem sozinhos. Como diretorias de algumas áreas da empresa estavam envolvidas e outras não? Como se houvesse corrupção nas refinarias, mas nas plataformas não, nos navios sim, mas nos terminais não...

Segundo a presidente Dilma, a Petrobras "dará muito mais orgulho ao país do que já deu", ressaltando que a empresa bateu recordes no que diz respeito à extração de petróleo e que será premiada nos Estados Unidos por suas tecnologias avançadas de exploração e exploração de petróleo em águas profundas. "A Petrobras já superou essa fase. Vai tomar rumo. Vocês podem ter certeza que defender a Petrobras é defender o Brasil", disse.

O que ela não comenta nessa defesa abstrata da mais importante empresa estatal do país é que a corrupção não é o único problema. Tal como outras estatais, como Correios e Caixa Econômica Federal, por exemplo, a Petrobras vive um quadro profundo de privatização e terceirização. Por trás da retórica nacionalista, que se apoia no justo sentimento e orgulho e suor de trabalhadores que fazem funcionar a Petrobrás ou a ECT, está uma privatização velada, parcerias com empresas multinacionais, acordos com as empreiteiras que agora são denunciadas, entre várias outras negociatas.

Enquanto discursa que “terceirização não pode comprometer direitos de trabalhadores”, frente à aprovação do PL4330 que amplia a terceirização, criticado pelo PT, Dilma nada diz sobre a terceirização que já existe na Petrobras. Atualmente, cerca de 80% do quadro de funcionários da empresa é composto por terceirizados, segundo dados fornecidos em entrevista ao jornal O Globo em 2014. Embora tenham sido realizados 18 concursos no período de 2003 a 2014, aumentando o número de efetivos concursados de 40 para 86 mil, o número de terceirizados foi de 121 para 360 mil.

Esses terceirizados estão envolvidos em 90% dos casos de acidentes, o que mostra uma das faces mais cruéis da terceirização, já que trabalham em postos mais arriscados, com piores condições de segurança, recebem menos treinamento e ainda, em alguns casos, trabalham em um regime de menos folgas por dia trabalhado do que os efetivos, como acontece nas plataformas onde os terceirizados folgam 14 dias após trabalhar 14 em alto-mar enquanto os petroleiros próprios folgam 21 para a mesma jornada.

A exemplo do que faz a ECT com seus carteiros temporários, que afirma serem contratações “emergenciais”, a Petrobras afirma que seus terceirizados realizam funções sazonais, ou que “não são atividades-fim” como por exemplo em obras de infraestrutura, de alimentação, de limpeza, de manutenção, uma infinidade de funções que é sem as quais é impossível conceber a empresa. Com o PL4330, não será mais necessário esconder os reais objetivos da terceirização, que são explorar mais os trabalhadores, atacar direitos trabalhistas historicamente conquistados com lutas, dividir a classe, e assim, manter os altos lucros as custas dos trabalhadores.

Se nem no assunto corrupção os petroleiros e todos trabalhadores brasileiros podem ter certeza que a limpeza já foi feita, com bilhões de reais que ainda não foram recuperados, na terceirização desenfreada menos ainda. Os milhares de desempregados do COMPERJ no Rio são testemunha de como a Petrobrás não se reergueu, menos ainda honrou os direitos dos trabalhadores terceirizados.
A corrupção e a terceirização andam de mãos dadas. Justamente nos contratos de terceirização que estes bilhões de reais da Operação Lava Jato foram desviados. A verdadeira “limpeza” da Petrobrás e outras estatais não será feita por mãos tucanas ou petistas, mas somente pela ação dos próprios trabalhadores, o que permitirá nos livrar tanto das pragas da terceirização quanto da irracionalidade da política empresarial nestas grandes empresas símbolos do país. Sem estes mandos e desmandos seria possível colocar estas empresas sob controle de seus trabalhadores garantindo melhores condições de trabalho e usá-las a serviço dos interesses de todo o povo brasileiro.




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