Política

LENDO OS EDITORIAIS DA GRANDE MÍDIA

Movendo os peões e testando uma “agenda positiva” neoliberal

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

domingo 12 de abril de 2015| Edição do dia

Na manhã de novas manifestações contra Dilma os três maiores jornais do país, a Folha, Estado, e O Globo curiosamente não estampam, nenhum deles, um editorial sobre o tema. Mas este silêncio e o tema que abordaram os três em seu editorial mostra um movimento, com disparidades, mas comum, de medir melhor as forças anti-Dilma, não embarcar, como ainda não fizeram em um “impeachment já” e tentar dar mais ênfase em algumas agendas neoliberais.

Todos os três jornais destacam na edição deste domingo a manutenção da baixíssima popularidade do governo Dilma segundo nova pesquisa Datafolha, e ainda um apoio, segundo a mesma pesquisa, de quase 70% da população ao inicio de um processo de impeachment. Porém tal notícia é tratada, ao menos na edição de hoje, com distanciamento. Os três grandes jornais dedicam numerosas páginas ao que podemos entender como um movimento cuidado de enxadrista. Medindo forças, movendo peças, esperando cenários se abrirem para movimentos mais decisivos.

Todos os três jornais analisam que, aparentemente, as manifestações serão menores, destacam as diferenças entre os grupos convocantes na internet, deliberadamente nem mencionam o PSDB e o debate de toda a semana se Aécio iria ou não as manifestações. Também dedicam páginas para tentar traçar perfis sobre qual grupo seria mais ‘liberal”, qual seria ‘mais legalista’, etc. Tudo isto se combina com abrir espaço para colunistas tanto na Folha como no Estado de São Paulo que argumentam que o espaço para grupos “social democratas” ou contra as desigualdades tenderão a aumentar no país e não diminuir, apesar da crise do PT, e como a agenda ‘liberal’ necessária aumentará a desigualdade e o desafio do país seria enfrentar esta agenda dupla de enfrentar a desigualdade e “modernizar-se” (em chave neoliberal).

Sem passar a defender nenhuma solução à crise política que o país vem atravessando, a agenda dos três jornais expressa neste domingo é “positiva”. Sem entrar em soluções negativas de tirar ou não Dilma, buscam argumentar questões estruturais que deveriam ser enfrentadas segundo sua opinião. O Globo em seu editorial intitulado “A burocracia que contamina o ambiente de negócios” argumenta como foram dados passos no país com a adoção do Supersimples, mas ainda haveria imensos entraves de legislação, regulamentação, que segundo o matutino carioca constitui “um entulho que obstrui as vias do empreendorismo e anuvia o ambiente de negócios no país.”

O grande jornal paulista com fama de mais progressista, apesar de ter cunhado a expressão ditabranda para a ditadura brasileira, trilhou um caminho diferente, mas percorreu o mesmo tema. No seu editorial “Corrupção sistêmica” utiliza-se os escândalos de corrupção da Petrobrás a falta de transparência nos gastos do BNDES, nos orçamentos públicos para chegar a seguinte conclusão: “Ainda assim, a velha ordem econômica brasileira de parcerias indevidas entre público e privado, entre Estado e empresa, tão invocada em nome da aceleração do desenvolvimento, tem grande peso no enraizamento e na modernização do hábito do favor. Despendem-se energias empreendedoras na busca de benefícios estatais ou na burla da competição, quando não na pura corrupção.”

Tal como O Globo a Folha vê nesta burocracia e na relação “público-privado” um entrave a competividade burguesa ao país, nas palavras do editorial: “O conjunto da obra, só não vê quem não quer, perverte o sistema político, degrada a eficiência econômica e eterniza privilégios sociais”.

O Estado de São Paulo dedica seu principal editorial também à corrupção, mas por um caminho distinto e com mais críticas abertas ao governo Dilma, linha mais declarada deste jornal que dos outros dois, mas para no final concluir também com uma agenda comum aos outros dois jornais.

No editorial “Lei para punir ou para perdoar?” argumentam como a interpretação da lei anti-corrupção que Dilma demorou a sancionar e a interpretação que ela e os órgãos de seu governo, ou mesmo de Estado, como a Advocacia Geral da União, tem dado a esta lei é de transformar o dispositivo legal da leniência (a colaboração das empresas, supostamente um equivalente à pessoa jurídica da “delação premiada” da pessoa física) em salvamento das empresas. Para aquele jornal não deveria ser dada esta interpretação, empresas corruptas tem que ser punidos. E quem quebrar, quebrou, parecem indicar. Ao contrário de opiniões do governo ou de outros jornais sobre este tema (como O Globo semanas atrás) argumentam que isto será bom para a economia: “o contrário, será extremamente benéfico que todas as 51 mil empresas da cadeia produtiva percebam que quem pratica ilícito é punido.”

Dois dos três grandes jornais, aparentemente, discutem corrupção em seus editoriais, porém sua resposta, ao contrário do clamor popular por punição aos culpados, confisco dos bens de corruptos e corruptores é de mudança de leis relativa a empresas, nada sobre devolução do dinheiro, prisão. Falam de corrupção, mas ficam muito longe de qualquer resposta ao tema, porque defendem este regime e seus partidos que só funcionam em base a corrupção para formação de alianças e de relações espúrias entre empresários e políticos. Os privilégios dos políticos, tudo pode ficar como está, não se importam com a corrupção, se importam com como fazer melhores negócios.

Na mesma semana que foi aprovado na Câmara de Deputados o PL 4330 que servirá, se ratificado pelo senado e promulgado por Dilma, para atacar condições de trabalho e assim aumentar a taxa de lucro (“a competitividade dizem os empresários e seus jornais”), e mesmo com a confirmação da queda de popularidade de Dilma, o que os grandes jornais estão querendo não é, por hora, o “Fora Dilma”, mas como além de mudar as relações de trabalho (todos defenderam entusiasticamente o PL 4330) começar a dar passos para mudar muita coisa no país, de leis ambientais à relação do Estado com empresas e avançar em uma agenda mais claramente de “estado mínimo”. O que está em jogo, parecem dizer, é muito mais que “fica” ou “fora” Dilma. É como às custas da classe trabalhadora, e talvez até de mesmo de setores da própria elite (como as empreiteiras), criando condições para aumentar a exploração capitalista no país.

Uma primeira resposta a esta agenda dos jornais, dos tucanos, de Levy e de Dilma, já que todos concordam com esta linha geral contra os trabalhadores, será dada na paralisação nacional dia 15.




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