Educação

UM SEMI-TUCANO DE ANTEPARO AO GOVERNO

Primeira análise sobre o novo ministro da Educação

A nomeação de Renato Janine Ribeiro para o Ministério da Educação foi rapidamente saudada por diversos analistas que os grandes meios encontraram. Ao não ser um “político”, mas um acadêmico, sua nomeação pode despertar a confiança dos trabalhadores. Seu currículo, no entanto, não aponta para o merecimento desta confiança.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sábado 28 de março de 2015| Edição do dia

(revisão dia 28/03 às 19:51)

A decisão, ao contrário do que dizem os grandes meios e o governo, não aparenta ter sido “técnica”: nenhum analista em nenhum dos grandes meios de comunicação pode fornecer sequer uma frase sobre os pensamentos deste “acadêmico”, que publicou, segundo os mesmos, 18 livros, mas nada se sabe do que pensa sobre a educação. A nosso ver a nomeação, apesar das aparências, atende a outros critérios do que uma escolha técnica.

Trata-se de um “acadêmico” conhecido por pronunciamentos políticos quase semanais na Folha de São Paulo, quase sempre de defesa indireta das posições tucanas e com vários laços ligando-o aos empresários e ao produtivismo acadêmico, isto combinado a posições progressistas em algumas questões sociais e democráticas (menos a maioridade penal).

O professor da USP é mais conhecido por diversos artigos em grandes jornais além de ter escrito diversos livros. Sua especialidade é a filosofia política de Hobbes e temas de “ética”. Volta e meia, com os constantes escândalos de corrupção a marcar o cenário político nacional, os grandes meios lhe abrem grande espaço. Em todos últimos anos, com nuances, adotou um discurso similar ao de setores da oposição burguesa ao PT, sobretudo nos temas de corrupção.

Seus posicionamentos críticos ao PT que vinham prevalecendo, mudaram repentinamente após as eleições de outubro e mais acentuadamente nas últimas semanas. “Curiosamente”, como gesto político a sua nova chefe, seu último artigo na Folha de São Paulo, datado do dia 25, tenta desvencilhar do PT a crítica da corrupção para que seja dirigida a todo o sistema.

Além de sua trajetória política como comentador nos jornais, o professor da USP deteve um cargo relevante na agência de fomento e avaliação dos pesquisadores universitários, a CAPES. Ou seja, foi agente do produtivismo universitário por anos, o sistema que premia as pesquisas rápidas e que rendem dezenas de artigos, em detrimento de pesquisas longas e inovadoras que não possam apresentar resultados mensuráveis em artigos tão rapidamente, gerando prejuízo ao desenvolvimento técnico e científico. Após ter cumprido este papel na CAPES o professor virou conselheiro da FIESP, a poderosa Federação da Indústria de São Paulo.

O gesto de nomear um “acadêmico” com bom trânsito com os tucanos, com a grande mídia, com os empresários da indústria paulista, pode ser interpretado como um gesto para tentar diminuir os ruídos entre o governo Dilma e a oposição e juntos chegarem a maiores acordos, visto que, para realizar os ajustes contra a classe trabalhadora nenhuma das alas dos empresários e seus partidos divergem.

Possivelmente o governo Dilma, em meio a sua crise, possa utilizar-se deste “acadêmico” para fazer muito mais do que administrar um MEC com verbas cortadas. É possível que seja usado de anteparo e manobras em temas ligados a corrupção e ética, colocando-o como especialista a comentar as decisões governamentais. Esta possibilidade seria algo similar ao que o governo Dilma tem feito com o “técnico” Joaquim Levy, que tem negociado os ajustes (no lugar de algum político fazê-lo). É possível que o “acadêmico” Janine Ribeiro também venha a ganhar um papel de destaque em meio ao ruína dos ministros petistas no governo Dilma e a interminável crise junto ao PMDB.




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