Política

ELEIÇÕES 2022

A falência do tucanato paulista

Uma pesquisa sobre as intenções de voto para presidente em 2022 do Paraná Pesquisas, realizada no estado de São Paulo, foi divulgada na segunda-feira, 3. As perguntas feitas a partir de uma divisão em dois cenários: um com Lula e o outro com Haddad como candidato do PT. Em ambos os cenários Bolsonaro apareceu na liderança com 32% dos votos. O governador João Dória, principal nome do PSDB, não passou de 6,2% das intenções de voto nos dois cenários. Expressão do esfacelamento do tucanato no seu principal reduto eleitoral, com sua base reacionária passando para os braços do bolsonarismo.

Ítalo Dias

Sociólogo

terça-feira 4 de maio| Edição do dia

No cenário com Lula, o ex-presidente segue Bolsonaro nas intenções de voto com 23,7%, antecipando um segundo turno entre ambos. Depois deles, Sérgio Moro, Dória, Ciro Gomes, Luciano Huck, João Amoedo obtiveram entre 6,7% e 4,1% das intenções de voto, com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco amargurando 0,6% dos votos.

A pesquisa também mediu a avaliação do governo Bolsonaro no estado: 33,8% consideram a gestão do presidente como ótima ou boa; 18,7% a veem como regular e 42,1% a consideram ruim ou péssima. Apenas 1,3% não opinaram. Quando a pergunta é se aprovam ou desaprovam a gestão, há uma divisão entre os paulistas: 45,6% aprovam e 49,4% desaprovam, enquanto 4,9% não responderam.

O que a pesquisa nos diz é que, apesar do aumento da rejeição de Bolsonaro nacionalmente frente às 400 mil mortes da pandemia, a piora do desemprego e da fome, sua base reacionária se mantém estável em cerca de 30% do eleitorado, e que São Paulo, cuja capital é o maior colégio eleitoral do país, ainda concentra uma rede de fiéis importantes ao presidente.

Na pesquisa publicada pelo mesmo instituto sobre a disputa pelo governo estadual, as intenções de voto são muito divididas, embora Alckmin apareça com maioria de 20% das intenções. A mesma pesquisa mostra que a avaliação de Dória no estado é muito ruim, com 65,3% de desaprovação. 54% consideram ruim/péssima sua gestão, apenas 15,8% como boa/ótima e 29% regular. É evidente que o PSDB é incapaz ainda de se recuperar como principal mediação à direita do regime, como era antes do golpe institucional de 2016, onde a disputa política era marcada entre PT e PSDB.

A eleição de Bolsonaro em 2018 foi marcada também pelo vergonhoso resultado de Geraldo Alckmin do PSDB. Com quase metade do tempo de TV o tucano obteve apenas 7% dos votos. Os atores do bonapartismo institucional queriam garantir a eleição do tucano para aprofundar a agenda de reformas neoliberais, privatizações e rebaixamento das condições de vida da população. Para isso se utilizaram de todo arsenal golpista da Lava-Jato para controlar o voto popular. A prisão de Lula e a prescrição de sua candidatura é fenômeno disso, a cassação da biometria de milhões de eleitores, particularmente do Nordeste, também não é coincidência (dentre outras) e foram feitas sob conduta do STF e pressão favorável dos militares.

Porém, o herdeiro desse avanço autoritário do regime não foi a velha direita do PSDB, mas Bolsonaro, o filho bastardo do golpismo que arrastou uma parcela significativa do eleitorado tucano para si.

O governador de São Paulo João Dória, que em 2018 era BolsoDoria, representando uma ala de extrema-direita que buscava “renovar” os quadros do PSDB, hoje busca alavancar sua candidatura liderando uma demagógica “oposição racional” de governadores. Junto ao STF, Centrão, chegou a ser anunciado pela grande mídia como o “pai da vacina” do Butantan, projetando sua figura como quem estaria se enfrentando com o negacionismo de Bolsonaro... com os fins de tê-lo candidato em 2022. Mas a pesquisa demonstra que o efeito esperado não aconteceu. Mesmo com Bolsonaro debilitado, Dória não conseguiu se constituir como candidatura de “terceira via” contra o bolsonarismo até mesmo onde governa. As disputas internas ao PSDB certamente ainda vão se expressar mais abertamente.

Pois Bolsonaro segue sendo essa principal mediação à direita, disputando a mesma base conservadora que apoia Doria e o PSDB em São Paulo. Os atos bolsonaristas, como nesse último 1 de Maio não deixa dúvidas nesse sentido. Em cada uma dessas ações São Paulo segue tendo uma importância grande em termos de adesão, embora a popularidade de Bolsonaro seja maior em outros estados, como no Centro-Oeste/Norte e Sul do país.

Esse cenário difícil para Dória mostra, pra além de São Paulo, o fracasso nacional do chamado "centro" de constituir seu candidato próprio, e que a aposta em uma "terceira via" do regime vai se mostrando cada vez mais distante de 2022.

No cenário onde a disputa de Bolsonaro é com Haddad, o PT sai de 23,2% para 14,5% das intenções de voto, mas essa diferença é distribuída mais ou menos igualmente entre os demais candidatos, e não Bolsonaro. É revelador de que os votos contrários a Bolsonaro por hora são bastante fechados inclusive em setores que apoiam candidaturas da direita, mas que votariam em Lula contra Bolsonaro.

Ganhar essa direita para si é o que Lula e o PT estão buscando a todo custo. A reabilitação de Lula pelo lava-jatista Fachin, não foi por qualquer senso de “democracia”, como diz o PT, dos árbitros do STF, que validaram o golpe e cada ataque contra os trabalhadores. Mas porque o STF, Centrão, setores militares e capitalistas, quiseram de maneira preventiva arrastar descontentamento crescente contra Bolsonaro para a disputa antecipada pela presidência em 2022. Querem legitimar pelo voto a aprovação da reforma trabalhista, da previdência, das privatizações, salvando a principal herança do golpismo. E Lula, como bom negociador com os capitalistas que é, entendeu bem a mensagem e promete, caso seja eleito, preservar tudo isso e ainda avançar com privatização da CAIXA. Para essa estratégia do “vale-tudo” para voltar a governar para os capitalistas, Lula e o PT buscam canalizar essa direita para uma aliança eleitoral em 2022.

O apoio efusivo à CPI da COVID e a articulação de um super-pedido de impeachment junto com ex-bolsonaristas como Frota e Joice Hesselmann, são expressão dessa estratégia de “combater” (entre trocentas aspas) Bolsonaro através de conchavos parlamentares e de aparatos partidários com a direita um pouco menos raivosa que Bolsonaro. São políticas para desgastar Bolsonaro eleitoralmente, e não de “salvar vidas” como diz o PT. Nada disso, a CPI da COVID investiga o óbvio que é a culpa de Bolsonaro de ter potencializado a pandemia, mas esconde a responsabilidade de todos os atores do bonapartismo institucional, que apesar da oposição discursiva, sustentam o governo depois de terem facilitado a sua eleição, além de que estão absolutamente juntos em atacar os direitos e condições de vida dos trabalhadores.

O superimpeachment é tão nefasto quanto, pois teria como resultado Mourão na presidência, defensor da ditadura entre outras infinitas barbaridades. Essa “guerra de desgaste” para obter “nada mais que 2022”, leva os trabalhadores e setores oprimidos para o abismo do apoio à direita como “mal menor”, que pode inclusive ter apoio do PSDB, a exemplo do convite para que Dória participasse do 1 de Maio da CUT e CTB, e mesmo que vença às eleições, não vai derrotar a extrema direita.

A unidade necessária para derrotar Bolsonaro não é se apoiando na decadente oligarquia tucana de São Paulo, muito menos em bolsonaristas “arrependidos” ou que se colaram na figura de extrema-direita para se eleger. É a unidade independente dos trabalhadores, mulheres, negros e LGBTs, que coordene as distintas lutas que ocorram pelo país, como vemos hoje na greve de rodoviários do DF e outros estados, dos professores de BH, das metalúrgicas da LG, por um programa de emergência à pandemia, com vacina para todos quebrando as patentes sem indenização, com controle dos trabalhadores da produção e distribuição da vacina, de um auxílio emergencial de pelo menos 1 salário mínimo, pela liberação remunerada e proibição das demissões de todos os serviços não essenciais. Para arrancar essa demanda será necessário fazer como os colombianos, chilenos, que impuseram derrotas aos ataques dos seus governos se auto-organizando, e que aqui no Brasil teria que ser enfrentado contra todos os atores do golpismo institucional. Uma luta que inclua a revogação de cada inquérito aberto pela LSN e sua imediata e completa revogação, contra a escalada autoritária no país, e para impor uma nova Constituinte que altere não só os jogadores, mas todas as regras desse regime, começando por revogar as reformas aprovadas nos governos Temer, Bolsonaro e também nos dos governos do PT e PSDB.

Essa unidade poderia estar sendo construída hoje, mas a CUT e CTB se recusa convocar uma coordenação dessas lutas, a serviço de levarmos sucessivas derrota sem luta, pavimentando o caminho do PT para 2022, mas também o fortalecimento da direita golpista. É fundamental que organizações como PSOL e PSTU, que compõe a unidade do super-impeachment com o PT e os ex-bolsonaristas rompam com isso e denunciem essa política do PT, batalhando conosco por exigir das centrais sindicais um plano de lutas.




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