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ATOS DO 19 DE JUNHO | MRT no 19J contra Bolsonaro, Mourão e os militares: por um plano de luta com paralisação nacional

Dezenas de milhares saíram às ruas nessa jornada do 19 de junho contra o governo Bolsonaro. Essa é a segunda manifestação de uma jornada que se iniciou dia 29 de maio, a maior manifestação desde o início da pandemia do coronavírus no Brasil (que hoje alcançou 500 mil mortos), com centenas de milhares ocupando as ruas de centenas de cidades do país.

sábado 19 de junho | Edição do dia

Os dois atos mostram que há disposição em setores amplos para enfrentar os ataques do governo Bolsonaro, dos militares, do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e dos governadores, como partes componentes do regime do golpe institucional responsável pela catástrofe econômica, social e sanitária do país.

Essa força de trabalhadores e jovens, unificada e organizada, poderia opor enormes obstáculos aos ajustes neoliberais operados pelo governo bolsonarista, como a tentativa de privatização da Eletrobrás. Mas as direções burocráticas das organizações de massas, especialmente dirigidas pelo PT, como a central sindical da CUT e a União Nacional dos Estudantes, possuem outros planos. São contrárias a que trabalhadores e jovens confiem em suas próprias forças e as desenvolvam contra o governo e os empresários. Ao invés de um plano de luta com uma verdadeira paralisação nacional, buscam construir atos espaçados, que canalizem a energia das ruas para a institucionalidade eleitoral, nomeadamente para as perspectivas de que Lula vença as eleições presidenciais de 2022.

Letícia Parks

Maíra Machado

Assim, as direções sindicais majoritárias, como a CUT e CTB, e as direções dos Movimentos Sociais, do PT e PSOL nas Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, construíram conscientemente a confusão e a divisão entre os amplos setores em luta, convocando atos em dias separados, como o chamado ao dia 18 de junho, alegadamente uma forma de “apoio” ao 19J. Essa conduta tem por objetivo dividir e enfraquecer as manifestações, disciplinando-as e moderando seus efeitos para que se encaixem perfeitamente no momento preparatório para as eleições.


Ao término do ato em Porto Alegre

Compreendemos a vontade de setores de massas da população para derrotar Bolsonaro em todos os níveis, inclusive com mudanças eleitorais. Mas consideramos de suma importância alertar que esperar 2022 apenas consolidará os aspectos mais reacionários do regime golpista, o que tornará inclusive um governo Lula muito mais conservador que os já moderados e pró-empresariais governos petistas anteriores. A Argentina representa um exemplo importante de alerta. Durante o governo direitista de Mauricio Macri (2016-2020) o peronismo e o kirchnerismo impuseram a espera das eleições de finais de 2019, bloqueando as tendências de luta de classes que surgiram em 2017 com a revolta contra a reforma da previdência. Hoje, o governo Alberto Fernández-Cristina Kirchner administra a herança ajustadora de Macri, com um ano e meio de redução salarial e precarização do trabalho e do ensino para a juventude.

Não podemos ignorar essa situação. Precisamos de um plano de luta e uma paralisação nacional para enfrentar os ataques, contra as intenções das direções ligadas ao PT, pois aceitar o desvio eleitoralista da nossa luta é o caminho mais curto para a derrota.


Bloco do MRT em Brasília

Nós, do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, colocamos nossos blocos nas ruas para lutar não apenas contra Bolsonaro, mas também contra Mourão, os militares, todo o regime golpista e suas reformas e ataques neoliberais. Ao mesmo tempo, saímos às ruas para exigir da CUT, CTB e demais centrais sindicais que convoquem um verdadeiro plano de lutas e um dia de paralisação nacional. Não podemos aceitar atos de fim de semana, uma vez por mês, controlados, enquanto milhares morrem todos os dias e os ataques neoliberais só crescem. A própria burguesia latinoamericana, com seu cinismo repugnante, reconhece que o Brasil é um dos únicos países que aproveita a pandemia para passar os ajustes antipopulares. Precisamos de uma estratégia que enfrente de fato essa ofensiva, sendo conscientes de que Lula e o PT buscam administrar “de maneira responsável” essa herança neoliberal do regime golpista. O próprio Lula já afirmou que pretende privatizar parte da Caixa e Furnas, bem como se nega a revogar a reforma da previdência, trabalhista e outras.

Christian Castillo, do PTS na Frente de Esquerda argentina

Angel Árias, da Liga dos Trabalhadores Socialistas, em solidariedade ao 19J

Em todos os atos que participamos erguemos essa bandeira. Os blocos da Juventude Faísca levantaram a necessidade da aliança operário-estudantil, fundamental para repelir os ataques contra a educação pública e os direitos sociais da juventude trabalhadora, cada vez mais vítima da terceirização e da uberização do trabalho.


Companheiros no Rio de Janeiro

Carolina Cacau

Uma paralisação nacional poderia colocar em cena os principais bastiões da classe trabalhadora brasileira, com metalúrgicos, petroleiros, rodoviários, metroviários, aeroviários, garis, trabalhadores informais e tantas outras categorias, em rota de colisão contra Bolsonaro e os empresários que querem ver a classe trabalhadora e a juventude sangrarem.

Cristina Silva em Recife


Em Natal

Vamos usar toda essa indignação para aguardar 2022 ou vamos construir uma estratégia para derrotar Bolsonaro e os golpistas agora? As centrais sindicais, controladas pelo PT e aliados, até o momento vem controlando os atos para que eles não se radicalizem e sejam espaçados no tempo, bem como não se aliem à juventude. Assim, jogam água fria na numa indignação crescente, que não quer aguardar de braços cruzados as soluções institucionais ou eleitorais, porque corretamente desconfia desse regime político podre. A última coisa que eles querem é que o Brasil se torne uma Colômbia, ou um Chile em 2019, exemplos de rebeliões populares que incendiaram a América Latina no último período e que questionaram a herança neoliberal do capitalismo local. O PT colabora com a contenção dessas tendências à explosão da luta de classes no Brasil, cumprindo um papel extraordinariamente conservador diante da ofensiva da extrema direita.


Ato em MG


Ato em Campinas

Ao mesmo tempo, eles mantêm uma divisão das lutas como vimos no primeiro dia de jornada, onde as centrais chamaram ato para o dia 26, dividindo forças com o dia 29, e como vimos nesse ato também. A união que precisamos é a da classe trabalhadora em luta com a juventude, as mulheres, os indígenas, e os LGBTs, não a união com representantes da direita e do golpismo. Ocorre que Lula e o PT estão nesse momento costurando alianças com aqueles que nos atacam diariamente, como Maia, Sarney, FHC, Kassab, golpistas notórios, utilizando das manifestações contra Bolsonaro para desgastá-lo e ao mesmo tempo controlando-as através das centrais sindicais para que não saia do seu controle. Dessa forma, eles tentam impedir que a classe trabalhadora saia em cena com seus métodos de paralisações, greves, piquetes, ocupações.


Ato em Belo Horizonte

Ato em SP

A esquerda brasileira, majoritariamente, segue sendo colaboradora desse desvio lulista. Levantam a política do “Fora Bolsonaro”, mirando o impeachment, forças que vão do PSOL ao PSTU, além dos stalinistas do PCB e da UP (que defendem todo tipo de governo nacionalista burguês na região). Nós viemos debatendo sobre essa política: a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” expressa o rechaço da população contra Bolsonaro, mas ganhou um conteúdo específico pela política do regime, do PT e também da esquerda institucional, de que a saída de Bolsonaro seria através de um impeachment. Isso significa na prática a entrada do reacionário General Mourão, defensor da ditadura militar de 1964-85. O impeachment depende da maioria do Congresso Nacional votar e ter acordo com a saída de um presidente; portanto, se o Congresso Nacional votar favoravelmente pela saída de Bolsonaro, isso não significa que o regime político estará mais fraco, e sim que estará unificado para retirar o presidente e colocar outro que possa seguir os ataques. É absurdo o argumento de Guilherme Boulos do PSOL de que Mourão seria mais responsável com a pandemia, sendo que os militares são parte da sustentação de Bolsonaro e de tudo que ele fez até aqui. Mais absurdo ainda é admitir que ele manteria a mesma política econômica, ou seja, a agenda de ataques, como se isso fosse de menor importância. O segundo problema é que o lento processo de impeachment não é para “já”, como dizem alguns setores, senão que demoraria meses chegando perto das eleições de 2022, ou seja, ninguém seriamente cogita essa possibilidade. Por isso, para nós, a bandeira do movimento tem que ser clara e categórica: Fora Bolsonaro, Mourão e os militares. E levando em conta que os outros setores do regime político, como o STF e o Congresso, querem se salvar, deveríamos debater no movimento a bandeira da Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pelas mobilizações em curso para não mudar apenas os jogadores e sim as regras do jogo. Neste caminho nós como revolucionários defenderemos a luta para impor um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.


Companheiros e companheiras de Santo André

É por isso que nós do Esquerda Diário e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) viemos debatendo com a esquerda brasileira sobre qual estratégia é necessária para que nossa luta seja vitoriosa, sem apostar em saídas institucionais e eleitorais, que passam por confiar em setores do regime político como o Congresso e o STF, que igualmente nos atacam e foram parte do golpe institucional de 2016 e da aprovação das reformas que descarregam a crise sobre nossas costas.




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