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Resposta à uma crítica curiosa

Juan Dal Maso

Resposta à uma crítica curiosa

Juan Dal Maso

A respeito do artigo "A esquerda está subestimando o perigo da extrema direita", de Martín Mosquera.

O editor da Jacobin América Latina publicou em 24/09/23 um extenso artigo no qual tenta fundamentar sua decisão de votar em Massa nas eleições de outubro. O texto contém muitas questões, algumas interessantes e dignas de consideração, como um esboço da relação entre ciclos econômicos e políticos, como uma forma de introdução à análise da situação atual. Inicialmente, não nos deteremos nestes aspectos, uma vez que vários deles foram abordados em múltiplos artigos que podem ser consultados neste jornal, mas não são o cerne de sua argumentação, servindo como introdução para o apoio a Massa. Vamos nos concentrar especialmente em suas críticas a FITU (Frente de Esquerda argentina), particularmente ao PTS (partido irmão do MRT na Argentina), e em sua argumentação sobre os motivos pelos quais, segundo ele, se deveria votar no candidato da Embaixada.

Mosquera diz que: a) estamos baseando nossa campanha em minimizar o perigo representado pela extrema direita; b) estamos exclusivamente focados na campanha eleitoral, sem promover o movimento de luta social; e c) devemos votar em Massa para ganhar o tempo necessário para mudar a situação, mas isso "não significa aceitar a ladeira escorregadia do ’mal menor’".

Vamos abordar algumas questões sobre esses pontos.

Vamos ao primeiro. Mosquera diz:

Uma maneira de diminuir a percepção do perigo representado pela extrema direita é dar como certo que um governo de Milei carecerá de apoio político e se desmoronará sob a pressão da mobilização popular. Essa é a abordagem predominante na Frente de Esquerda (FIT-U). O PTS chegou a comparar Milei com Liz Truss, a primeira-ministra britânica que, em outubro de 2022, foi expulsa do poder 45 dias após assumir. Esse é um prognóstico perigoso, em grande parte imaginário e feito sob medida para as necessidades políticas, não da luta de classes, mas da campanha presidencial da Frente de Esquerda. A candidatura da FIT-U tem o problema de que poderia encontrar uma resposta democrática da sociedade que tentará barrar Milei recorrendo à única cédula que pode ter um impacto prático nesse sentido, ou seja, a do peronismo. Concentrar a campanha eleitoral em diminuir o perigo representado por Milei, a fim de influenciar ligeiramente o resultado eleitoral da Frente de Esquerda, é uma estratégia mesquinha e irresponsável.

Acontece que o que ele diz é falso. Nem em nossos vídeos, nem nas intervenções de nossos representantes públicos em todos os níveis, enfatizamos isso. Concentramo-nos em destacar que a defesa dos direitos da classe trabalhadora, das mulheres e dos jovens deve ser feita nas ruas e que apoiar o governo de ajuste não é a forma de deter o avanço da extrema direita. Basta revisar os materiais mencionados para confirmar isso. Além disso, ao contrário do peronismo que o ajudou a montar as listas, desde a FITU denunciamos precocemente a natureza reacionária de suas propostas, como se viu no debate televisivo de 2021, onde Myriam Bregman o enfrentou duramente, assim como em múltiplas críticas em materiais audiovisuais e escritos sobre as ideias do libertarianismo.

Outra questão são as discussões sobre como caracterizar o fenômeno do voto em Milei ou as polêmicas sobre a relação entre cenários possíveis e as opções políticas a serem tomadas a respeito. Nisso, devo dizer que pessoalmente concordo com Mosquera de que não devemos fazer especulações excessivas sobre o que Milei poderia ou não fazer, nem usar isso como uma forma de argumentar demais sobre a relevância de nossa posição política. No entanto, ele mesmo não segue sua própria exigência, já que dedica uma boa parte de seu artigo a explicar todas as desgraças que um governo de La Libertad Avanza poderia causar, como forma de justificar seu apoio a Massa.

Em relação ao segundo ponto levantado por Mosquera, sua posição é que é necessário desenvolver um amplo movimento social contra a extrema direita, mas infelizmente a FITU não compartilha essa política e se concentra exclusivamente em sua campanha eleitoral. Deixemos que o próprio texto expresse a posição do FITU sobre isso:

Embora existam condições para impulsionar uma mobilização democrática contra a extrema direita, enfrentamos um problema muito sério. Surpreendentemente, os dois principais agentes políticos que poderiam promovê-la não estão interessados, pelo menos por enquanto. Por um lado, a Frente de Izquierda está comprometida em conduzir sua própria campanha eleitoral, que está competindo com qualquer movimento social que priorize a luta contra a extrema direita, pois este último poderia desviar apoio eleitoral da esquerda para a candidatura oficialista. Por outro lado, o setor mais diretamente ligado a Cristina Kirchner parece estar ausente de qualquer ação contra a extrema direita, mesmo no âmbito da campanha eleitoral mais elementar. A estratégia deste setor parece se concentrar exclusivamente em reter o estratégico governo da Província de Buenos Aires, semelhante ao adotado em 2015.

Mais uma vez, o que ele diz sobre a política da FITU é falso. Dou-lhe apenas alguns exemplos: antes das PASO (eleições primárias para definir os candidatos que concorrerão às eleições presidenciais na Argentina), o papel dos constituintes do FITU apoiando a luta do povo de Jujuy contra o repressor Gerardo Morales, junto com as comunidades indígenas, professores, estudantes e todo o povo de Jujuy. Mais recentemente: a organização de um dia de mobilização em massa junto com sindicatos combativos e movimentos sociais realizado em 14/09/2023 em todo o país. Nosso apoio incondicional ao Malón de la Paz em sua permanência em CABA. Nossa participação na preparação da mobilização do movimento de mulheres que ocorrerá nesta quinta-feira, 28 de setembro. Nosso acompanhamento e organização de assembleias estudantis para discutir como enfrentar o avanço da extrema direita e o ajuste do governo, incluindo várias expulsões de grupos da "Julio Argentino" de sedes universitárias. Por último, para citar um exemplo próximo, o apoio à gestão operária da Cerâmica Neuquén em sua luta contra o aumento das tarifas, o recente corte que sofreram pela empresa fornecedora de eletricidade e contra a tentativa de leilão marcada para 27 de outubro próximo. Mosquera pode se informar sobre todas essas e outras iniciativas semelhantes neste mesmo jornal. Ao mesmo tempo, denunciamos a passividade das centrais sindicais e exigimos greve e plano de luta contra o ajuste e para rejeitar também o avanço da extrema direita. Embora, agora que penso nisso, pareceria que ele quer uma mobilização social de apoio mais ou menos explícito a Massa, mais do que movimentos de luta contra a extrema direita, mas independentes disso. Aí não podemos fazer nada pelo nosso crítico, a menos que lhe indiquemos que a burocracia sindical está realizando vários atos de apoio ao ministro-candidato…

Finalmente, o argumento de votar em Massa sem cair na armadilha do "mal menor". Aqui, Mosquera comete uma inconsistência impossível de ser salva, mesmo pelos dialéticos mais sutis.

Apoiando o neoliberalismo progressista contra a extrema direita é equivalente a apoiar a causa para tentar evitar o efeito. E, no entanto, embora pareça paradoxal, existem momentos críticos que exigem ações pontuais "com a causa contra o efeito" com o objetivo precioso de ganhar tempo para mudar a situação. Nas próximas eleições, é necessário utilizar a cédula de voto que pode ter o efeito prático de barrar o caminho da extrema direita (neste caso, o corpo presidencial do peronismo), mas isso não é o mesmo que aceitar a lógica do "mal menor". Os escritos clássicos de Trotsky contra o fascismo continuam oferecendo lições úteis a esse respeito. Trotsky enfatizava que em circunstâncias críticas alguém pode concordar mesmo "com o diabo e sua avó", mas "com a única condição de não amarrar as mãos". Ou seja, ele defendia táticas unitárias que não implicavam subordinação política nem acordos duradouros.

Uma pequena digressão "teórica": o uso de citações de Trótski na discussão sobre a necessidade de uma Frente Única entre o Partido Comunista e a social-democracia alemã diante da ascensão do nazismo é bastante notável. Permito-me sugerir ao nosso crítico que a analogia seria mais apropriada se Trótski tivesse chamado para enfrentar Hitler votando no Centro Católico, mas esse não é o caso. Também não faz sentido, como faz Mosquera e pouparemos o público da citação, criticar o livro de Fernando Rosso "La hegemonía imposible" por "subestimar" o cesarismo e apresentar isso como algo funcional para a suposta "subestimação" de Milei. Além do anacronismo de pretender que um livro publicado há mais de um ano respondesse aos problemas da conjuntura atual, Mosquera parece ignorar que o cesarismo em Gramsci não consiste apenas na irrupção de um César, mas em várias formas de "política totalitária" que incluem, por exemplo, os governos de unidade nacional (que Massa diz que formará com figuras como seu amigo Gerardo Morales) e a estatização da burocracia sindical, da qual Mosquera menciona apenas as alas que tendem a apoiar Milei. Sugerimos também que, em relação ao cesarismo, releia o livro de Francesca Antonini (ou leia-o pela primeira vez).

Retomando o último ponto de apoiar Massa sem cair na armadilha do "mal menor", o autor tenta apresentar o apoio ao ministro-candidato como uma maneira de ganhar tempo para acumular organização e capacidade de luta. No entanto, é precisamente essa acumulação que é abandonada na medida em que o foco está em promover o voto no candidato oficialista, ao mesmo tempo em que são rejeitados os elementos do movimento real que surgem contra a extrema direita e o ajuste do governo em favor de outro movimento, neste caso imaginário, orientado exclusivamente contra a extrema direita.

Em resumo, uma posição inconsistente sustentada em premissas falsas no que diz respeito à polêmica com as posições da FITU. Por último, gostaria de destacar um aspecto que pode surgir da própria análise de nosso crítico sobre a relação entre ciclos econômicos e políticos. A profundidade da crise indica que, sem afetar os interesses fundamentais do grande capital, o governo que assumir no próximo período terá que adotar uma política de austeridade mais rigorosa do que a que já enfrentamos nos últimos anos. Ao tentar argumentar a favor do apoio a Massa (com Gerardo Morales incluído), usando a FITU como um "espantalho", Mosquera mais uma vez assume uma ideologia evolutiva e pacifista que não corresponde à gravidade da situação. Daí que seus esforços heróicos para convocar o voto em Massa pareçam ainda mais insensatos.

Valorizamos a experiência da Jacobin América Latina como um espaço que promove o debate de ideias em diferentes níveis. No entanto, seu diretor não será lembrado exatamente por sua aderência excessiva à lógica, aos dados ou à política revolucionária.


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